Em 2015, as dez músicas mais tocadas nas rádios brasileiras eram sertanejas e cantadas por homens. No ano seguinte, a lista continuava inteiramente sertaneja, mas trazia quatro vozes femininas, e na quarta posição estava "Infiel", bolero dramático em que uma mulher traída enfrenta, ao mesmo tempo, o marido e a amante. A canção apresentou o Brasil a Marília Mendonça, então com 20 anos, e marcou o início de uma virada que a jornalista Carol Prado investiga em "O rastro da rainha: Para entender o fenômeno Marília Mendonça", que chega às livrarias pela Editora Vestígio.
O lançamento acontece num momento em que a memória da cantora volta a mobilizar o público, com a exposição Marília Mendonça: Sentimento Louco atualmente em cartaz no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo; a série documental de mesmo nome, que estreia no Prime nesta sexta-feira, 16 de outubro; e a cinebiografia Marília, prevista para 2027. Entre tantas formas de revisitar sua história, o livro aposta na reportagem e na análise da obra para medir o tamanho da artista e do vazio que ela deixou.
O rastro da rainha é uma espécie de biografia contada através das músicas. De um repertório de mais de trezentas composições próprias, a autora escolheu dez, de "Minha Herança", escrita aos 12 anos, à póstuma "Tudo Vai Ficar Bem", e fez de cada uma o fio condutor de uma etapa da história. Para isso, passou meses conversando com artistas, produtores, compositores, empresários e fãs, revisitou entrevistas e imagens de arquivo e ouviu a coleção de áudios que a cantora enviava ao "rebanho", como chamava seus seguidores, num grupo de mensagens.
A origem dessa obra está numa casa evangélica de Goiânia onde música secular era proibida. Escondida no quarto, a jovem Marília gravava Pitty e NX Zero no MP3 e dizia que nunca cantaria sertanejo, "música de corno". Aos 12 anos, depois da primeira desilusão amorosa, compôs "Minha Herança", gravada anos depois pela dupla João Neto & Frederico. "Eram músicas muito adultas para uma criança… Ela era, de fato, uma criança", resume o empresário Wander Oliveira. Antes de ficar conhecida como cantora, ela já era uma compositora disputada nos bastidores, dona de um estilo tão particular que ganhou nome próprio: o jeito "mariliônico" de compor.
Quando subiu ao palco, ao lado das amigas Maiara & Maraísa, levou para o centro do gênero personagens que o sertanejo quase nunca tinha ouvido: mulheres traídas, amantes, mulheres que bebem, desejam, erram e revidam. Pioneiras como as Irmãs Galvão, Inezita Barroso, Roberta Miranda e Paula Fernandes haviam sido exceções solitárias; agora, pela primeira vez, havia um movimento coletivo. A imprensa batizou o fenômeno de "feminejo", rótulo que Marília rejeitou até o fim. "Existe rock feminino? Existe MPB feminina? Então, qual é a sua? Sertanejo é sertanejo, não existe 'feminejo'", disse a um executivo da Som Livre.
O livro também não poupa a artista. Quem conviveu com ela descreve uma pessoa teimosa, ciumenta com os amigos e capaz de brigar pelos motivos mais fúteis. A relação íntima com os fãs, mostra a autora, era espontânea, mas também estratégica: o grupo de mensagens servia para organizar mutirões que inflavam seus números na internet. Foi esse engajamento que sustentou a turnê Todos os Cantos, em que a cantora panfletava nas ruas para anunciar shows gratuitos, e que levou sua "Live Local", em abril de 2020, a 3,3 milhões de acessos simultâneos, a transmissão mais assistida da história do YouTube até então.
A parte final investiga o que veio depois do acidente aéreo de novembro de 2021. A morte da cantora, escreve a autora, virou uma ferida aberta no sertanejo, a ponto de nomes como Maiara & Maraísa e Henrique & Juliano recusarem entrevistas para o livro. O luto ajudou a desencadear a pausa de Zé Neto & Cristiano em 2024 e trouxe para o gênero um debate sobre saúde mental que ele sempre negligenciou.
Para Carol Prado, Marília foi a artista brasileira mais importante surgida neste século, alguém que chegou ao topo sem editar a própria personalidade. "Marília cantou sobre mulher amante, mulher que trai, corna, cachaceira, prostituta, talarica, não correspondida. Falou para todo mundo ouvir, e ajudou a gente a se entender e a se aceitar. De alguma forma, viver como mulher se tornou um pouco mais fácil por causa dela".
Ouvir músicas da Marília Mendonça
Fonte: Grupo Autêntica





